- Mugidos e aboios
Conselho
Planta, amigo, uma árvore que seja,
Jamais te desalente um solo enxuto,
Rega a semente, um dia ela viceja
E poderás ter pomos em tributo;
Ao menos uma sombra benfazeja,
Se te nega a colheita do seu fruto,
Dar-te-á, pois nem tudo que se almeja
Nos chega sem esforço resoluto.
Pratica o bem, com intuito somente
De ser por natureza generoso,
Tornando-te humilde e complacente.
Se uma pedra te fere, é bom guardá-la,
Evitarás um ato inamistoso
De quem tente outra vez arremessá-la.
Carro-de-boi
Quando lembro o passado, em minha mente,
Ouço um carro de boi, longe a cantar,
Mas hoje, como passa de repente,
Velho engenho moroso, a se arrastar...
Angústias sem rem remédio do presente
Anseios incontidos de avançar...
Gritamos a nós mesmos - para a frente,
Dominados da pressa de chegar.
Assim, não nos detemos pela estrada,
Olhamos a paisagem de relance,
Para esquecê-la ao termo da jornada.
Se o homem quiser ser o que já foi,
O bem que ele perdeu talvez alcance,
Se voltar a tanger carro de boi.
(Mugidos e aboios, págs. 77 e 33)