- Garganta do Esqueleto, Editora-toé, 1965, Rio de Janeiro
- Uma cruz para Kennedy, Ed. Leitura, 1966, Rio de Janeiro.
PATOS era na verdade uma cidadezinha bem alegre durante os festejos do carnval, com o seu entrudo gaiato e divertido e rumoroso.
Lembro-me com profunda saudade dos seus papangus de rua, do seu velho zé-pereira, das batalhas de "laranjinhas", das seringadas d'água, dos banhos a muque no "açudinho".
Era assim a pagodeira de Momo no sertão do meu tempo.
A "laranjinha" - de cera e água perfumada - dava graça e distinção ao entrudo. Tornara-se por isso mesmo, desde logo, o divertimento preferido pela elite da cidade, embora se transformasse às vezes em brincadeira de mau gosto. Era justamente quando o sujeito, sem esperar, recebia em cheio a lapada de uma "laranjinha carnavalesca, mesmo jogada de troça, sem qualquer intenção ofensiva.
De fato, era divertido e msmo engraçado estourar de ca&ccedi;oada uma "laranjinha" numa criatura distraída. Tinha seu pitoresco o gracejo da cena. Dava vivacidade à folia momesca nas ruas.
Aliás, era preciso jeito e arte para pegar a "laranjinha" e jogá-la além, sem que ela se espatifasse antes de atingir ao alvo.
Fui um garoto perito no seu lançamento. Sabem por que? Porque minha mãe fazia "laranjinha" de encomenda e também para mandar vender avulsamente na cidade.
(Coitada da minha mãe! Inventava essas coisas somente para ganhar dinheiro pra casa. Achava pouco o trabalho na manivela de uma máquina de costura o dia inteiro.)
Tinha a "laranjinha" a aparência de uma esfera pequenina. De uma pequena laranja. E sua forma que era de madeira correspondia apenas à metade, a uma banda, enfiada na ponta de um prego.
Seu preparo começava assim: derretida a cera - cera de vela de igreja - numa tijeta de barro, metia-se primeiro a forma numa terrina d'água, mergulhando-a a seguir na cera líquida já levemente colorida.
(Ainda hoje, ao acender uma vela, sinto logo no ar o cheiro da cera carnavalesca de antigamente se derretendo no fogo).
Cortada a apara circular de toda a borda, o molde de cera se despregaava facilmente da forma.
Passava-se depois à soldagem das duas bandas, soldagem que era feita delicadamente com a própria cera derretida e um pequenino pincel de pena de galinha. (Nesse trabalho minha mãe se esmerava).
Pronta a esfera que poderia variar de tamanho e formato, vinha o enchimento com "Água florida" diluída em água do pote. E, por fim, a solda no furo aberto para a entrada da água aromatizada.
Como era linda no colorido da cera transparente a "laranjinha" que minha mãe fabricava com mãos de fada para a cidade se divertir! Para o entrudo que era o encanto das moças e rapazes. E para as brincadeiras de rua, de imprevistos pitorescos.
Recordo-me agora de uma "laranjinha" trazida de casa, que, da porta da mercearia de meu pai, eu joguei de pagode num matuto em plena feira.
A pancada dágua se espalhou pelo tórax do sertanejo, lavando-lhe o peito já molhado pelo suor da canícula.
Acontece, porém, para surpresa minha, o pior: o feirante, um cidadão de meia idade, amunheca com o choque ou a molhadela. Levam-no semi-morto para o interior da farmácia de Aprígio Sá, ao lado. E estoura a bomba!
- Nelson de seu Xixi matou um homem com uma "laranjinha" dágua!
A feira se volta para a farmácia que fica entupida de gente aguardando o desfecho da cena com a palavra do conhecido profissional. Palavra que surge afinal:
- Não foi nada,,, - esclarece o Dr. Aprígio, num tom respeitoso, conselheiral, ajuntando: o homem estava era alcoolizado. Fingira-se de morto. Mas acaba de acordar com um simples cheiro de amoníaco. Está bom, está vivo. Ele vem já aí...
A matutada cai no mais gostoso coro de gargalhadas ao saber que a morte se transformava em troça, em mangação. Ningu&eaacute;m, porém, arreda pé da farmácia para olhar a saída do morto-vivo ou do bêbado-curado que aparece um tanto desengonçado e se vai com a garotada da feira na rabada.
Também fazia dessas a "laranjinha"...
Era bravo e galhofeiro por excelência o carnval de rua no meu sertão de antigamente.
Quantas vezes eu vi, por exemplo, a turma agarrar o indivíduo pelos pés e pelos braços, fazer o balanço do estilo e aos gritos e gargalhadas largá-lo com roupa e tudo dentro d'água, no açudinho da rua do Mosquito.
O banho era pra valer. Mas no reinado sertanejo de Momo não valia absolutamento como desaforo. Porque era mesmo brincadeira de gente grande.
Sim, esquecia-me do entrudo de seringa... Seringa de folha-de-flandre de dar cristel em cavalo. Seringa que o folião carregava, disfarçando-a ao longo do braço esquerdo, com o dedo no orifício de saída.
Bem extravagante esse entrudo, porque aseringada deixava o cabra ensopado d'água que nem pinto na chuva.
Entrudo de seringa cavalar? Só mesmo no Nordeste do meu tempo de lamparina de gás e candeeiro de manga de vidro!
Na realidade eu gostava mesmo era do entrudo de "laranjinha", da "laranjinha feita por minha mãe.
E de ver os mascarados perambulando pela cidade. Fazendo graça pra gente e medo de espantar à meninada mais miúda.
Os papangus constituíam inegavelmente o ponto alto dos folguedos de rua.
- Carnaval da minha terra! Carnaval da "laranjinha" colorida de água cheirosa que nunca mais eu vi igual em parte alguma! Até parece que sumiu comigo do sertão das Espinharas...
Era assim o pobre e alegre carnaval da minha infância.
(Paisagens do Nordeste, págs. 88/91)