SÁTYRO, ERNANI - Ernani Ayres Sátyro e Sousa nasceu em Patos, a 11 de setembro de 1911, filho de Miguel Sátyro e Sousa e Capitulina Ayres Sátyro e Sousa.

Fez os estudos primários na terra natal, onde foi aluno da veneranda professora patoense Maria Nunes e dos professores Alfredo Lustosa Cabral, Severino Correia e Renato de Alencar. Ali foi discípulo também daquele que seria seu colega na Câmara dos Deputados, Rafael Correia de Oliveira. Em 1919 matriculou-se no Colégio Pio X, na Capital paraibana, que, à época chamava-se Parahyba. Naquele estabelecimento, dá início às suas atividades literárias, participando da Arcádia Literária, lá existente, e publicando na revista do Colégio o seu primeiro conto. Também naquela época manifestam-se os seus pendores políticos. Aluno do Lyceu Paraibano, costumava comparecer assiduamente à Assembléia Legislativa, para assistir às sessões diárias daquele colegiado. Como estudante, participou da campanha da Aliança Liberal, em 1929, tendo saudado, em nome de seus colegas, uma comitiva liberal que veio à Paraíba, em defesa das candidaturas de Getúlio Vargas e João Pessoa, à Presidência e Vice-Presidência da República, respectivamente. Em 1930, transferiu-se para o Recife, matriculando-se na antiga e tradicional Faculdade de Direito daquela Capital, por onde se bacharelou em 1933. Durante os tempos acadêmicos atuou na redação do Diário de Pernambuco e foi Presidente do Diretório Acadêmico da Faculdade. Retornando à cidade natal, dedicou-se à advocacia e à política, elegendo-se deputado à Assembléia Constituinte da Paraíba, em 1934. Promulgada a Constituição de 1935, continuou como Deputado Estadual até 1937, quando foi implantado o Estado Novo, com a dissolução do Congresso Nacional e de todas as Assembléias Legislativas estaduais. Foi Chefe de Polícia e Prefeito da Capital paraibana. Com a redemocratização, voltou à atividade política, integrando a Assembléia Nacional Constituinte que elaborou a Carta Magna de 1946. Posteriormente, reelegeu-se, sucessivamente, deputado federal, exercendo essa representação até 1969, quando renunciou ao mandato para assumir um lugar no Superior Tribunal Militar. Aposentando-se desse cargo, foi eleito Governador da Paraíba, assumindo o posto em 15 de março de 1971 e nele permanecendo até 15 de março de 1975. Como Governador, realizou uma das mais profícuas administrações de que se tem notícia na Paraíba. Após deixar a chefia do Poder Executivo de seu Estado, exerceu, ainda, em dois períodos o cargo de Deputado Federal. Nessa fase, foi relator de importantes projetos, dentre os quais sobrelevam o de anistia aos implicados em questões políticas e o projeto do novo Código Civil que foi, com seu relatório e parecer, aprovado pela Câmara dos Deputados e remetido, em seguida, ao Senado Federal. Pertenceu à Academia Paraibana de Letras, ao Instituto Histórico de Geográfico Paraibano e à Academia de Letras de Campina Grande. Faleceu a 8 de maio de 1986, em Brasília, sendo ali sepultado. Em 1993, seus restos mortais foram trasladados para a sua cidade natal e colocados no mausoléu existente na casa em que nasceu e onde tem sede a Fundação Ernani Sátyro, instituição criada pelo Governo do Estado da Paraíba para dinamizar a cultura na região sertaneja e preservar a memória de seu patrono.


Fundação Ernani Sátyro

A estréia de Ernani Sátyro na literatura deu-se em 1954, com a publicação de seu romance O QUADRO-NEGRO, pela Editora José Olympio. O livro foi bem recebido pela crítica, dele se ocupando, em comentários de jornais, Olívio Montenegro, Adonias Filho, Temístocles Linhares, Adonias Filho, José Lins do Rego, Virgínius da Gama e Melo, Luiz Delgado, Nilo Pereira, Joel Pontes, Wilson Martins e outros. Em 1957, a mesma editora publicou o segundo romance de Ernani Sátyro, MARIANA, igualmente bem recepcionado pela crítica. Um terceiro romance, DIA DE SÃO JOSÉ, mantém-se ainda inédito, devendo ser publicado, brevemente, pela Fundação Ernani Sátyro. Poeta bissexto, na expressão de Manuel Bandeira, em cuja Antologia de Poetas Brasileiros Bissextos Contemporâneos estão incluídos dez poemas de sua autoria, Ernani Sátyro tornou-se "poeta contumaz", também na expressão de Manuel Bandeira, ao publicar em 1984 o livro de poesias intitulado O CANTO DO RETARDATÁRIO. Toda a obra de Ernani Sátyro está sendo reunida e publicada pela Fundação Ernani Sátyro.

BIBLIOGRAFIA

- O novo conceito de legítima defesa, Tip. da Livraria Moderna, 1943, Campina Grande.

- O Quadro-Negro, Liv. José Olympio Editora, 1973, Rio de Janeiro, 2a Edição.

- Mariana, Liv. José Olympio Editora, 1957, Rio de Janeiro.

- O canto do retardatário, s/e, s/d, s/l.

- Carlos Dias Fernandes (Discurso de posse na Academia Paraibana de Letras, publicado juntamente com o discurso de saudação do Acadêmico Ivan Bichara Sobreira), A União Editora, 1964, s/l.

- Construir e humanizar (Discurso de posse no Governo do Estado da Paraíba e 1a. Mensagem à Assembléia Legislativa), s/e, 1971, s/l.

- Cadeira n. 1: Augusto dos Anjos (Discurso de saudação ao Acadêmico Humberto Nóbrega na Academia Paraibana de Letras, publicado juntamente com o discurso do empossando), Editora A União, 1971, s/l.

- Mensagens à Assembléia Legislativa - 1973 e 1974, A União Companhia Editora, s/d, s/l.

- Direito Penal Militar e Segurança Nacional, s/e, 1977, Braília.

- José Américo - O escritor e o estadista (In memoriam). (Discurso na Caˆmara dos Deputados, em homenagem a José Américo, publicado juntamente com os discursos pronunciados, na mesma ocasião pelos deputados Octacílio Nóbrega de Queiroz, Carneiro Arnaud e Flávio Marcílio), Câmara dos Deputados, 1980, Brasília)

- Código Civil (Projeto de Lei n. 634, de 1975) (Relatório aprovado pela Câmara dos Deputados), Câmara dos Deputados, 1982, Brasília.

- Uma voz do Nordeste para o Brasil (De volta à Câmara dos Deputados), Câmara dos Deputados; 1982, Brasiília.

- Argemiro de Figueiredo (Discurso em homenagem ao ex-Governador paraibano, publicado juntamente com o discurso do deputado Raimundo Asfora, pronunciado na mesma ocasião), Câmara dos Deputados, 1983, Brasília.

- Comissões Parlamentares de Inquérito (seus limites jurídicos e políticos) - (Separata da Revista de Informação Legislativa, a. 20, n. 79, jul./set. 1983.

- Ernani contesta OAB e não concorda com emendas ao novo Código Civil, s/e, 1983, s/l. (Mimeo).

- Fatos e homens da vida pública brasileira, Câmara dos Deputados, 1983, Brasília.

- Mais um ano de atividade parlamentar, Câmara dos Deputados, 1983, Brasília.

- Presença no direito e na literatura, s/e, s/d, s/l. (Mimeo)

- Como se fossem memórias, Câmara dos Deputados, 1985, Brasília.

- De volta aos velhos caminhos, Câmara dos Deputados, 1985, Brasília.

OBRAS COMPLETAS

- Grande é a vida, Fundação Ernani Sátyro, 1992, Patos.

- Retratos a bico de pena, Fundação Ernani Sátyro, 1992, Patos.

- Tradição e renovação, Fundação Ernani Sátyro, 1994, Patos.

- O Quadro-Negro (Romance), Fundação Ernani Sátyro, 1995, Patos, 3a. edição.

- Discursos acadêmicos, Fundação Ernani Sátyro, 1994

- Mariana (Romance), Fundação Ernani Sátyro, 1996, Patos, 2a. edição.

ANTOLOGIA

JUNHO

Domingo, 3

Enfim, eis-me de volta à cidade natal, com uma carta de bacharel, alguma literatura e nenhuma experiência.
Poderia continuar aqui o diário que desde muitos anos venho escrevendo, com interrupções mais ou menos prolongadas, como acontece com todos os meus empreendimentos, Mas não quero. Para uma vida nova, uma encadernção também nova. Isto importa muito, por motivos que sinto interiormente, embora não os saiba explicar muito bem.
Procurarei dizer as coisas tão simplesmente como as sinto. Nada de linguagem arrevezada e preciosa. Creio possuir, entre os poucos dons que a natureza me confiou, esse de escrever com naturalidade. Que depois se melhore a frade e corrija a gramática, endireite-se o pensamento, até onde ajudem as próprias forças, isso é até uma obrigação. Mas nada de exageros e tortura. O que vale é o que sai no primeiro impulso, sem artifícios e violências. Pensamento e forma são como corpo e alma. Só sabemos dizer o que realmente temos a dizer.
Sei que às vezes me torno discursivo. Quero reagir, mas não há remédio. Existem impressões que nos habituamos a transmitir em tom de discurso, como há outras que só sabemos traduzir em voz baixa, quase sussurrando. E não é possível mudar, nesta altura da vida, o sentido de certas inclinações.
Pelo meu gosto só falarei do essencial. Mas fica esclarecido, para evitar confusões, que o essencial muitas vezes se encontra nas pequenas coisas. Sou um sujeito exigente a este respeito. Só considero importante o que ocorre dentro de mim. Os acontecimentos lá fora, por mais extraordinários que eles sejam, não merecerão de minha pena os três pingos de uma reticência, se não repercutirem nos meus nervos e no meu sangue.
Só não posso ser insensível à natureza. Em torno de suas oscilações também varia a nossa existência, numa terra em que os homens vivem de cara para cima, a consultar um céu mudo e engimático. Apenas acontece - quero insistir nisto - que mais do que esse espetáculo celeste me importam as pessoas, e nestas, principalmente, os retratos que me ficam cá dentro.
Minha conversa será curta ou comprida, conforme as necessidades do espírito e o limite das energias físicas. Hoje, por exemplo, estou muito cansado da longa viagem que fiz a cavalo, para alcançar a cidadezinha do meu nascimento.
É possível que amanhã volte mais lépido e disposto.
Vou fazer o possível para que este diário não tenha o mesmo destino do outro, ou dos outros, que não passaram de tentativas. Não é que não goste do ofício. Gosto. É que sou volúvel para aquilo que me inspira paixão.
Não valem as intenções. Vale apenas o que eu conseguir captar, para satisfação de minha sensibilidade. Até mesmo um diário ítimo deve ter preocupações de arte.
Ou isso ou nada.

(O Quadro-Negro, 3a. ed., págs. 59/60)


              ESPINHARAS, RIO DE MINHA INFÂNCIA

              (Fragmento)


              Todos cantam o seu rio 
              O meu também vou cantar,
              Maior do que o Amazonas,
              Só menor do que o mar.
              ...........................................................
              - Fala, meu rio, fala.
              Tuas nascentes vêm das mesmas serras molhadas pelos meus sonhos.
              Nas tuas águas já morri afogado, 
              Mas aqui estou carregando-te nos meus braços,
              Com os olhos fechados
              Para não veres que estou chorando.
              Não quero que fiques triste e seco,
              Maltratado pelo sol,
              Tuas areias ardendo,
              Com o ventre generoso
              Perfurado de cacimbas,
              Sangrando água para todos.
              Quero que corra alegre e travesso
              Embora às vezes pensativo,
              Como naqueles dias
              Em que eu prometia fazer de nossa cidade a Capital do mundo,
              Sendo eu o rei
              E tu o oceano.
              Lembras as nossas conversas?
              Pois vai lembrando e falando,
              Mesmo quando não me ouvires mais.




                         MÃE
 

                                A meu irmão Firmino


              Este é o mais difícil dos poemas.
              E no entanto como ela era simples.
              Tão simples e natural.
              Que até parecia modelada, e n&atild; nascida.
              A sua impaciência era a pressa de servir.
              Os seus castigos eram uma de suas obediências a Deus.
              Quantas vezes, ao castigar, sorria. 
              O marior elogio que te faço, ó Mãe,
              É dizer que tuas fraquezas eram mais fortes que minhas forças.
              Teus filhos foram muitos, mas são poucos.
              Tu os viste partir de um em um,
              Pequenos ou grandes.
              Tantas foram as mortes plantadas no teu coração
              E tamanha era a tua resignação diante de Deus,
              Que deste morada à Morte em tua casa.
              Trataste-a tão bem que ela se compadeceu de ti.
              E te levou antes de desfolhar as duas últimas pétalas.
              Só não se compadeceu a Morte, ao te levar,
              Foi das duas pélas
              Que ficaram
              A sangrar.


               (O canto do retardatário, págs. 83 e 113)

V. outras poesias deste autor no Jornal de Poesia