- Potocas, piadas e pilhérias, s/e, s/d, s/l.
- Casca e nó, s/e, 1974, João Pessoa.
- Sem peia e sem cabresto, A União, s/d, s/l.
- Gaveta de sapateiro, s/e, 1977, João Pessoa.
- Rabo cheio, s/e, 1980, João Pessoa.
- As fofocas de Seu Zé, 3 vols. s/e, 1983/1984, João Pessoa.
- 350 lorotas políticas, s/e, s/d, s/l.
- Buscapé, Unigraf, 1987, João Pessoa.
- 500 pensamentos avulsos, s/e, 1992, João Pessoa.
- Sabedoria popular, Academia Paraibana de Letras, 1992, João Pessoa.
- Sertanejadas, s/e, 1993, João Pessoa.
- Zé, você sabe bem que eu nasci e me criei aqui na Capital. Fui ao sertão, apenas, uma vez, às pressas. E, portanto, um mundo quase que totalmente desconhecido para mim. Ainda vou conhecê-lo. Mas, antes, desejaria que você que é de lá e conhece tudo aquilo, me dissesse, por bondade, o que quer dizer a palavra tangerino? Pergunto, porque em conversas, já ouvi você se referir, mais de uma vez, a este nome.
- É facílimo de você entender. Tangerino é o mesmo tangedor de boi.
- Ah! É o vaqueiro, não é?
Não. O vaqueiro anda montado e encourado. É o vigia do gado. O encarregado de trazê-lo e levá-lo para o campo.
E a diferença é só esta? Que um anda montado e outro a pé?
Nada disso! Não se vexe, que eu lhe explico tudo direitinho. Ouça-me: o boi e o seu tangedor se confundem e se contrastam, a um só tempo. Ambos a pé: o boi com a sua teimosia, o tangerino com a sua paciência. Antigamente, quando ainda não existiam o trem e o caminhão, as boiadas, para toda e qualquer distância, eeram transportadas pelo pé, guiadas e seguidas pelos tangerinos.
O tangerino, como já lhe disse, andava a pé. A sua indumentária era uma das mais simples do mundo: calça e camisa de brim grosso de cor parda, para esconder o sujo; chapéu de massa, comumente, velho, em cujos furos da copa, abertos por ele, eram conduzidos os rolinhos de palha de milho, cortadas, já no ponto de enrolar o fumo picado para o cigarro; de alpercatas de couro cru, de lepo-lepo, com uma correia enrabichada por trás do calcanhar e outra por cima do pé, amarrada em lcço, para dar mnaior segurança; de bisaco de lado e mucuta às costas, embrulhada num cobertor de lã, pardo-escuro, dentro da qual, além da rede e da muda de rreserva, conduzia, amarrados num saco, a farinha, a rapadura e o pedaço de carne seca de bode. E mais ainda, o rosário no pescoço, o quicé de faca no cóo da calça e a vara de pau-ferro empunhada na mão, com a qual arrebatava os bois teimosos.
- E só pelo fato de ele tanger as boiadas, aliás uma coisa comum, você dá tanto valor assim ao tangerino?
- Voc&eacirc; estanha que eu dê tanta importância a uma figura humana modesta, an⊚nima, como a do tangerino, porque ainda não lhe foi revelado o conteúdo de serviços relevantes que ele prestou à nossa civilização interiorana.
- Como, então?
- Desbravando os nossos sertões, quando tudo ainda era mata, habitado pelos índios e pelas feras. É necessário que se diga que, como elemento civilizador, aqui nas caatingas do Nordeste, o boi andou na frente do homem. Foi o primeiro elemento civilizador dos nossos rincões. Não há um só palo de chão do cariri e do sertão que não guarde, carimbados no tempo e na distância, os rastros do boi e do seu tangedor.
- E foi assim, rapaz?
- Foi, sim. Se a História não registra, corra por conta de quem não soube escrevê-la. A verdade, incontestável, é que o curral foi o primeiro marco de civilização plantado nas nossas plagas ensolaradas. Só depois com o tempo, foram construídos o rancho, o cercado, a morada do vaqueiro, a casa da fazenda, a capela, o armazém e tudo mais que se fazia necessário.
- E, por você falar nisso, quem sabe se não há por aí afora, aqui mesmo no nosso Estado, alguma cidade, ou mais de uma, originadas de um curral?
- São várias. Patos mesmo, a terceira da Paraíba, é uma delas. Em conseqüência do que o povo de lá tem uma vocação pastoril tão acentuada. Festa de gado ali é festa do povo.. De todos. Que sacode, anima e agita tudo: campo e cidade, homens e mulheres, velhos e moços. Haja visto que as melhores exposições de animais e as mais animadas vaquejadas do Estado são as que se realizam em Patos, todos os anos. São afamadas.
- E você, que é do campo, ainda chegou a conviver pessoalmente com o tangerio?
- Tá! se convivi!, Eu tanto conheço bem o boi como o seu tangerino. De tangerino, na minha infância, fui amigo íntimo; do boi, na minha mocidade, fui vaqueiro.
- Que bom! Então, é por isso que você fala dele com tanta segurança. Até parece que está vendo-o.
- E, porventura, um sujeito telúrico, como eu sou, seria capaz de se esquecer de uma figura humana, da sua infância e da sua juventude, marcada a ferro e fogo na sua memória? Jamais.
- E quando foi, mais ou menos, que ele deixou de prestar os seus serviços profissionais?
- Para não determinar época exata, a sua atuação profissional, que desde o advento do caminhão e do trem começou a cair, de ano para ano, só paraizou totalmente mesmo com a pavimentação das principais rodovias.
- Você ainda conhece alguns? Já que faz tão pouco tempo que as estradas foram pavimentadas.
- De profissão exclusiva mesmo, ainda existem em S. José de Piranhas os Deós e o negro velho Caetano, do Peba, que transportavam as boiadas da Pinheiras, deixando, todas as vezes, meu pai com os olhos cheios de lágrimas. Todo fazendeiro quer bem ao seu gado.
- Havia quantidade determinada de bois para cada tangerino?
- Não. A quantidade era variável. Depois que o gado saía do pasto, poucos tangerinos, dois ou três, conduziam uma centena e mais de bois estrada afora. Seguiam calma e pachorrentamente, o chamado do guia, que, de quando em quando, soltava um aboio repassado de saudades e ressumante de queixumes e de tristezas.
- E do tempo da sua adolescência, você só se lembra mesmo das boiadas que saíam da fazenda de sua pai?
- Não. Lembro-me também das grandes boiadas que nas décadas de vinte e trinta, de duzentas e trezentas cabeças, cada, pernoitavam na Pinheiras, procedentes do Piauí em demanda da Bahia. Bois erados, de chifres enormes, os chamados "boi-do-Piauí" com os quais os cornos ainda hoje sã comparados.
Daquela época, ainda guardo nos ouvidos, a dolência da música nostálgica com a qual o guia chamava a boiada:
Ei, boinho, que vem de longe!
Que vai para o estado da Bahia,
Com santo Antônio na cabeceira
E Nossa Senhora na guia!(Sem peia e sem cabresto, págs. 111/113)