Nota da Arquidiocese da Paraíba

CARTA ABERTA SOBRE O
MASSACRE NO PRESÍDIO DO RÓGER

Não somos a favor da impunidade,
mas a vida é, acima de tudo, um “direito inafiançável”,
como garante a Constituição Brasileira, e “dom de Deus”,
como nos assegura a fé que professamos.

No final da tarde do dia 29 de julho de 1997, sete detentos vindos da Penitenciária Máxima de Mangabeira, que se encontravam na cela de reconhecimento do Presídio do Róger, amotinaram-se e tomaram como reféns o capitão Givaldo Farias, diretor, mais quatro agentes e dois apenados que ajudam à administração.

A Pastoral Carcerária da Arquidiocese da Paraíba tomou conhecimento do fato por volta das 18h, através de uma comunicação por telefone do Secretário da Justiça e Cidadania da Paraíba, Dr. Adalberto Targino, que se encontrava em Brasília. Fomos então interpelados pelo Secretário a participarmos das negociações com os amotinados.

Ao chegarmos ao Presídio - um grupo de cinco membros da Pastoral Carcerária -, as autoridades que estavam à frente das negociações acharam desnecessária a nossa participação no diálogo, uma vez que policiais “especializados” para tais situações já estavam à frente. A tese defendida pelas autoridades responsáveis era de que “a estratégia é vencer pelo cansaço. Como o número de reféns é igual ao número de amotinados, nada vai acontecer”. Fomos acompanhando o processo como espectadores, com esperanças de que, com base na “estratégia”, existiria tempo para dialogarmos com os presos amotinados e contribuirmos com as negociações. Tentamos, ainda, por nossa própria iniciativa, um diálogo com os presos no isolado. Ouvimos as suas reivindicações e pedimos calma, para que a “estratégia” fosse desenvolvida.

Por volta das 22h30, a cela do “isolado” foi invadida por homens e cães das Polícias Militar, Civil e Penitenciária, munidos com armamento pesado e coletes à prova de balas. Ouviram-se, em seguida, gritos e tiros. Não se soube quem autorizou a invasão, pois no momento da operação, as autoridades nos garantiam que “tudo estava sob controle”.

Os reféns foram libertados, alguns com pequenos ferimentos, provocados por estiletes e pequenos objetos cortantes que estavam em posse dos amotinados. Nós, representantes da Pastoral Carcerária, acompanhamos a saída dos reféns, e aguardávamos notícias sobre os amotinados. Para nossa surpresa, as luzes do pátio foram apagadas e foi formado um corredor humano de policiais, querendo impossibilitar a nossa visão, no momento da retirada dos presos feridos e mortos. Os feridos que foram colocados nas ambulâncias do Corpo de Bombeiros, passaram muito tempo para serem encaminhados ao hospital. Os mortos foram jogados em camionetas da Polícia Militar, sem nenhum respeito e em meio a gargalhadas. Fomos convidados várias vezes a nos retirar do recinto, mas somente saímos quando transportaram os cadáveres.

Os reféns fizeram uma experiência de morte. A Pastoral Carcerária estava lá também em solidariedade a eles, na esperança de que tudo fosse resolvido de forma pacífica. Acreditávamos que o “cansaço” fosse de fato uma estratégia. No entanto, nos sentimos ludibriados pelos que estavam fazendo a negociação - muito rápida por sinal -, porque sempre nos levaram a acreditar que “tudo estava sob controle”.

Diante de tudo isso, saímos com um sentimento de estar revivendo o massacre do Carandiru, uma vergonha nacional. Não concordamos com o que aconteceu “misteriosamente”: foi um grande massacre, mas para eles “uma grande vitória”.

Não somos a favor da impunidade, mas a vida é, acima de tudo, um “direito inafiançável”, como garante a Constituição Brasileira, e “dom de Deus”, como nos assegura a fé que professamos.

Dom Marcelo Pinto Carvalheira
Arcebispo da Paraíba

Pe. João Bosco F. do Nascimento
Pe. Vicente Zambello
Pe. Antônio Maria Guérin
Pe. Guido Maurice Norel
Guiany Campos Coutinho
Membros da Pastoral Carcerária da Arquidiocese .

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